
Fotos: Romulo Fialdini / Divulgação
Tem Open House que é especialmente gostoso de fazer porque a casa diz muito sobre o trabalho de quem mora ali. E este é exatamente o caso do apartamento de Patricia Carvalho, sócia da @migsarquitetura. O escrtiório nasceu no Rio de Janeiro e hoje assina projetos em diferentes cidades do país, mas basta entrar neste apartamento para perceber que um certo jeito carioca de morar veio junto para São Paulo.
Patricia chama essa diferença de uma arquitetura mais leve, mais à vontade. Eu mesma já tinha percebido isso em vários projetos cariocas que publiquei, sem conseguir apontar exatamente o porquê. Aqui, algumas pistas aparecem: muita luz natural, paredes brancas, madeiras em diferentes tons e uma liberdade maior para colocar cor. Mas a história deste apartamento começa antes, em Itaipava.
De uma casa na serra para São Paulo
Durante 20 anos, Patricia e a família tiveram uma casa de campo no Vale da Boa Esperança, em Itaipava. Quando os filhos foram estudar nos Estados Unidos e as idas para a serra diminuíram, o casal decidiu vender a propriedade e trocar aquele endereço por uma base confortável em São Paulo, cidade para onde já viajavam muito a trabalho. A ideia era simples: parar de depender de hotéis e ter por aqui um lugar realmente deles.
A procura, então, foi por um apartamento ainda bastante original, que pudesse ser completamente transformado. E boa parte do que existia em Itaipava veio para cá. Patricia conta que literalmente fechou a casa, empacotou tudo e trouxe para São Paulo: móveis, louças, luminárias e objetos. “Foi cut and paste”, brinca no vídeo.
Isso explica uma das coisas mais interessantes do projeto. Embora seja um pied-à-terre urbano, o apartamento não ganhou aquela aparência impessoal que muitas vezes associamos a uma segunda residência. Há peças da marcenaria autoral da MIGS, móveis que estavam na serra, uma antiga mesa de peroba que originalmente servia para passar roupas, cadeiras da sala de jantar e diferentes objetos que encontraram aqui uma nova configuração.
Uma planta tradicional que deixou de ser compartimentada
O apartamento tinha originalmente cerca de 140 m² e uma planta bastante tradicional: sala, três quartos, cozinha fechada, área de serviço e dependência. A reforma partiu justamente da vontade de integrar esses espaços e adaptá-los ao modo como Patricia e a família vivem hoje.
A cozinha se abriu para a área social e passou a participar de fato da sala. Para Patricia, essa integração tem muito a ver com uma mudança na própria maneira de morar. Com menos funcionários dentro de casa e uma rotina mais informal, faz cada vez menos sentido deixar alguém cozinhando isolado enquanto o restante das pessoas está reunido em outro ambiente.
Até um elemento que poderia ter virado problema entrou no desenho: uma tubulação do prédio que não podia ser desviada foi envelopada e incorporada à estante, em uma área que originalmente fazia parte do quarto de serviço.
Marcenaria desenhada nos detalhes
Vale olhar com atenção para a cozinha. Toda a marcenaria foi desenhada pelo escritório e revela um tipo de detalhamento que Patricia considera difícil de alcançar com sistemas padronizados. Há variações de profundidade e espessura, frentes frisadas e uma combinação entre madeira maciça e lâmina de madeira de acordo com a necessidade de cada peça.
A escolha também ajuda a equilibrar duas referências que poderiam parecer opostas: de um lado, um apartamento cosmopolita em São Paulo; do outro, a vontade de carregar um pouco da casa da serra para o novo endereço. Por isso, a marcenaria ganhou deliberadamente uma aparência mais de “casinha”, como Patricia define durante nossa conversa.
E madeira, aqui, não precisa combinar com madeira. Patricia e Adriana Valle, sua sócia na MIGS, gostam justamente de misturar diferentes tonalidades, tanto no mobiliário quanto na marcenaria. Neste apartamento, a peroba predomina, mas convive sem cerimônia com outras espécies e acabamentos.
Uma casa que não tenta parecer nova
Talvez seja justamente essa a graça do apartamento. A reforma mudou radicalmente a maneira de usar a planta, mas não partiu da ideia de substituir tudo. As estruturas de concreto ficaram aparentes. As antigas janelas de madeira foram mantidas, mesmo quando seria possível trocá-las por alumínio. No quarto, onde o ruído da cidade incomodava mais, Patricia preservou a janela externa e acrescentou outra, acústica, pelo lado de dentro.
E, no meio disso, continuam aparecendo objetos que atravessaram outros endereços e gerações, como um jogo de louças que pertenceu à tataravó de Patricia.
O resultado é uma casa de arquiteta no melhor sentido da expressão: cheia de soluções para observar de perto, mas sem aquela sensação de que cada centímetro precisou ser excessivamente desenhado.
No Open House completo, Patricia me mostra todos esses detalhes, conta como o apartamento foi transformado e ainda rende uma ótima conversa sobre as diferenças entre morar no Rio e em São Paulo, iluminação, marcenaria e o jeito como nossas casas acompanham mudanças de rotina. Dê o play e venha conhecer comigo este apartamento paulistano com borogodó carioca.

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