Fotos: Evelyn Müller / Divulgação

Tem casa que você entra e já entende o projeto. Neste Open House, fui visitar um apartamento assinado pela Patricia Carvalho e pela Adriana Valle, da @migsarquitetura, e a primeira coisa que me chamou a atenção foi a abertura: mesmo em um dia cinza, a luz entra por todos os lados e o verde aparece praticamente como uma continuação dos ambientes.

O apartamento foi pensado para um carioca que trabalha entre Rio de Janeiro e São Paulo. Ou seja, não é exatamente uma casa de fim de semana, mas também não funciona como uma residência convencional. Ele precisava de um lugar prático para a rotina durante a semana e, ao mesmo tempo, de um espaço que realmente tivesse cara de casa.

A planta original tinha uma configuração mais tradicional, pensada para uma família, com cozinha fechada e uma sala de jantar formal. A primeira grande decisão da MIGs foi eliminar essas divisões e integrar sala, jantar, cozinha e varanda. O resultado é uma área social que funciona praticamente como um único ambiente. De um lado, a cidade. Do outro, muito verde. A vista alcança inclusive um jardim projetado por Burle Marx no condomínio vizinho, algo bastante inesperado em São Paulo.

A varanda entra nessa lógica e vira quase uma segunda sala. As poltronas podem mudar de posição, pequenos bancos funcionam como apoio e as plantas escolhidas também consideram a rotina do proprietário deste apê, que nem sempre está em São Paulo nos finais de semana.

Uma cozinha que merece ser olhada de perto

Agora, tem uma coisa que vocês sabem que eu adoro reparar: marcenaria bem desenhada, e aqui ela é uma das protagonistas. A própria MIGs define sua linguagem como contemporânea, com destaque justamente para as marcenarias autorais. Na cozinha, isso aparece em detalhes que poderiam passar despercebidos.

Uma das minhas partes preferidas é a estrutura suspensa sobre a bancada. Em vez da serralheria que estamos acostumados a encontrar nesse tipo de solução, as arquitetas fizeram tudo em madeira. Até o desenho foi pensado para dar leveza: as peças verticais são retangulares, enquanto a horizontal tem acabamento arredondado.

Outro recurso ótimo é a tampa sobre o cooktop. Fechada, ela transforma aquela superfície em mais uma área de trabalho ou de apoio quando a casa recebe gente. É uma solução que o escritório já havia desenvolvido em outros projetos e trouxe para cá justamente porque funciona muito bem no dia a dia.

São essas ideias pequenas que eu adoro encontrar em Open House porque, além de bonitas, podem inspirar outros projetos.

Novo, antigo e um pouco de Rio em São Paulo

Outra coisa muito gostosa neste apartamento é que ele não parece ter saído inteiro de uma loja. O proprietário já tinha algumas peças de um apartamento anterior, também projetado pelo escritório no Rio de Janeiro, cerca de 11 anos antes. Parte desse acervo veio para São Paulo e encontrou móveis antigos, peças garimpadas e desenhos contemporâneos.

Essa mistura, aliás, é bastante assumida pela Patricia. Durante a visita, conversamos sobre como o projeto reúne marcenaria contemporânea e mobiliário antigo, além de azul e verde, duas cores que aparecem bastante no trabalho do escritório.

Talvez seja justamente daí que venha a tal bossa carioca que senti por aqui. Nada parece excessivamente combinado. As coisas convivem.

Até uma obra que já pertencia ao proprietário interferiu na arquitetura: como a parede existente era pequena demais para recebê-la, o escritório reduziu um dos vãos para criar a superfície necessária para a tela.

Nem toda reforma precisa começar do zero

Tem ainda uma decisão deste projeto que eu acho especialmente importante: saber o que não reformar. No banheiro da suíte, por exemplo, praticamente nada foi alterado. A marcenaria existente estava boa e foi preservada. Algumas portas do apartamento anterior também permaneceram. Em vez de substituir tudo simplesmente porque havia um novo projeto, as arquitetas olharam para o que funcionava e concentraram a intervenção no que realmente precisava mudar.

Pode parecer óbvio, mas nem sempre é. Reforma não precisa significar jogar tudo fora. No quarto, as mudanças são mais sutis. Papel de parede, acabamento de madeira contornando a cabeceira e mesinhas desenhadas pelo escritório criam uma espécie de moldura ao redor da cama. É um detalhe pequeno, mas que muda completamente a percepção do ambiente.

E, novamente, a vista faz parte do projeto. A suíte também se abre para o verde, reforçando uma característica que acompanha praticamente toda a visita: a busca por trazer o máximo possível de luz natural e paisagem para dentro do apartamento.

Aperte o play e venha comigo

São 102 m², mas este é daqueles projetos em que vale prestar atenção menos no tamanho e mais nas soluções: a integração da planta, a marcenaria desenhada nos mínimos detalhes, a tampa que transforma o cooktop em bancada, os móveis antigos misturados aos contemporâneos e, principalmente, a decisão de preservar aquilo que já funcionava.

No vídeo completo, Patricia mostra tudo isso de perto e ainda conversamos sobre um assunto que sempre gera dúvidas: afinal, o que significa contratar o acompanhamento de obra de um escritório de arquitetura e o que efetivamente está incluído nesse trabalho?

Dê o play no novo Open House do Casa de Valentina e venha conhecer cada cantinho comigo.

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