
Este é o segundo Open House que faço com a Cláudia Pixu e, se na primeira visita já dava para perceber como o trabalho dela com imagem atravessa a maneira de morar, neste apartamento isso aparece de um jeito ainda mais concentrado. Produtora fotográfica, a Pixu trabalhou por cerca de 30 anos no mercado editorial, passando por revistas como Cláudia, Elle, Casa e Jardim e Casa e Comida. Hoje, além das produções para marcas e redes sociais, ela coordena workshops de mesa posta pelo Brasil, muitos deles realizados dentro da própria casa.
A mudança para o apartamento veio acompanhada de uma mudança de fase. Depois de anos vivendo em uma casa grande na mesma região, com as filhas já seguindo seus próprios caminhos, a Pixu decidiu procurar um lugar menor e mais prático. O imóvel já estava em boas condições quando ela chegou, mas algumas decisões foram fundamentais para aproximá-lo do jeito dela de morar. O teto rebaixado de gesso foi retirado para recuperar o pé-direito e um dos quartos foi eliminado para ampliar a área social. A escolha tinha uma razão muito clara: mesmo com menos espaço, receber continuava sendo prioridade.
Uma casa nova feita de histórias antigas
Talvez o que eu mais goste neste apartamento seja justamente o fato de ele não ter sido montado do zero. Muita coisa veio da casa anterior e precisou encontrar uma nova função, uma nova posição ou simplesmente uma nova companhia. O lustre da sala, por exemplo, está com a Pixu há muitos anos e já passou por outros endereços. Outros móveis foram para a casa da irmã ou das filhas porque não cabiam no apartamento. E aquilo que ficou ajuda a criar uma continuidade entre as diferentes fases da vida dela.
A estante da sala é um ótimo exemplo de como essa adaptação aconteceu. A Pixu partiu de uma referência que tinha visto e pediu ao marceneiro uma peça semelhante. Depois, com a sugestão de Adriana Penteado, o desenho ganhou trechos vazados para não pesar no ambiente e preservar uma sensação de leveza. Pintada em uma cor intensa, ela acabou se tornando também a estrutura que organiza boa parte das coleções, livros, objetos e memórias da casa.
O olhar treinado de quem trabalha com imagem
E aí entramos em uma parte da visita que eu adorei: entender como a Pixu organiza tanta coisa sem transformar a casa em uma simples acumulação de objetos. Existe método ali. Na estante, ela reúne peças por grupos, como a coleção de bulhes e a de cogumelos, e mistura esses conjuntos aos livros que ainda consulta e usa inclusive como fundo para suas produções fotográficas.
Outro recurso que ela usa tanto nas estantes quanto nas mesas é a composição em triângulo. A ideia é trabalhar diferentes alturas e camadas para conduzir o olhar pela cena. Pode parecer intuitivo quando vemos tudo pronto, mas existe uma experiência de décadas por trás dessas escolhas. A Pixu trabalha com imagem desde os 23 anos e fala justamente sobre esse olhar treinado, capaz de perceber rapidamente quando uma composição funciona ou quando alguma coisa precisa mudar.
Isso também ajuda a explicar por que a mistura funciona tão bem. Papel de parede, estampas, tecidos, quadros, peças artesanais, objetos de família e achados de garimpo convivem sem a preocupação de pertencer à mesma época ou seguir uma única linguagem. Algumas combinações de tecidos e revestimentos foram feitas com Lia, da Le Fil Tecidos, incluindo o papel de parede da sala. Em outros casos, são objetos encontrados por acaso, recuperados ou ressignificados pela própria Pixu.
Uma casa que continua mudando
Praticamente tudo tem uma história. Há uma antiga caixa de música que pertenceu à mãe, peças trazidas pelas filhas de viagens, objetos que vieram de famílias de amigos e muitos garimpos. Um dos abajures, por exemplo, nasceu do encontro entre uma base comprada por R$ 50 e uma cúpula encontrada por R$ 20. É justamente esse tipo de combinação que faz a casa escapar daquela sensação de ambiente pronto e intocável.
E a Pixu mexe nas coisas o tempo inteiro. A chegada da televisão à sala, algo que ela nunca tinha tido nas casas anteriores, fez com que passasse ainda mais tempo nesse ambiente e começasse a experimentar novas posições para os objetos. A casa vai sendo editada enquanto é vivida. Nada parece precisar permanecer exatamente onde foi colocado pela primeira vez.
A conversa também acabou entrando em um assunto delicioso: como mudou o trabalho de quem vive de criar imagens. Quando começou na produção, a Pixu conta que não existia internet para pesquisar referências e que parte do salário era reservada para comprar revistas estrangeiras e acompanhar o que estava acontecendo lá fora. Hoje, Pinterest e Instagram abriram um universo praticamente infinito de pesquisa, embora ela ressalte uma coisa importante: para pesquisar bem, ainda é preciso ter repertório e saber de onde partir.
O apartamento da Pixu é, no fim das contas, um ótimo retrato desse repertório acumulado. Não apenas porque está cheio de objetos, estampas e referências, mas porque mostra o que acontece quando alguém que passou a vida olhando, pesquisando, produzindo e enquadrando imagens leva esse exercício para dentro da própria casa.
No vídeo completo, a gente passeia por cada detalhe, conhece as histórias por trás de várias dessas peças e, claro, aproveita para arrancar da Pixu algumas dicas de composição que dá vontade de testar em casa na mesma hora. Vem fazer esse Open House comigo!
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