
Dessa vez, fui conhecer o apartamento da Augusta Mahfuz, e acho que uma das coisas mais interessantes dessa visita é perceber como uma casa vai sendo construída por muitas camadas. Não estou falando só de arquitetura, mas de viagens, referências, móveis que atravessaram gerações, presentes, coleções e até objetos que pertencem mais a um morador do que ao outro. No fim, tudo isso convive e forma um retrato muito particular de quem vive ali.
Entre o que fica e o que muda
O apartamento já tinha uma arquitetura bastante marcante quando Augusta e a família chegaram, mas precisava se adaptar à maneira como eles queriam morar. O projeto de interiores, assinado por Maricy Borges, partiu justamente desse encontro entre o que valia a pena preservar e aquilo que precisava mudar. E teve mudança trabalhosa! Um dos grandes desafios da obra foi eliminar uma antiga sauna, que escondia nada menos do que sete camadas de concreto. No total, foram quatro meses de obra.
Ao mesmo tempo, nem tudo precisava desaparecer. A adega, por exemplo, já fazia parte do apartamento e acabou permanecendo, mesmo com os moradores contando que praticamente não bebem. Retirá-la significaria uma intervenção muito maior e, nesse caso, fazia mais sentido incorporar o elemento existente ao novo projeto. É uma decisão que parece pequena, mas diz muito sobre uma obra que não parte da ideia de apagar completamente o que veio antes.
Um maximalismo muito pessoal
A personalidade da casa aparece mesmo é nas escolhas da Augusta. Ela trabalha com referências visuais e chegou ao projeto com pastas de imagens, Pinterest, mood boards e referências que ajudaram a construir a linguagem dos interiores. Na época, uma inspiração importante era o trabalho de Kelly Wearstler. O resultado é uma casa assumidamente maximalista, em que cores, estampas, pedras, plantas, obras e objetos convivem sem a preocupação de seguir uma composição excessivamente rígida.
E aí entram as histórias. Há presentes de casamento, fotos da família, uma coleção de cogumelos que começou quase por acaso, pedras que o marido adora, prêmios, peças herdadas e objetos trazidos de diferentes momentos da vida. Algumas escolhas também remetem às raízes árabes da família. Nada parece ter sido colocado ali apenas para preencher espaço. Essa mistura é justamente o que faz o apartamento parecer menos uma composição pronta e mais uma casa que continua sendo construída com o tempo.
Um apartamento pensado para receber
Outro ponto importante era criar espaço para receber. O sofá da sala mudou de orientação para privilegiar a convivência, enquanto a varanda, que era pouco utilizada pelos antigos moradores, ganhou uma nova configuração. A churrasqueira de alvenaria e o mobiliário anterior deram lugar a um espaço que hoje participa de verdade da rotina: a família faz churrascos, recebe amigos, serve aperitivos do lado de fora e integra esse uso ao interior. Não por acaso, Augusta conta que uma das razões para ter escolhido o imóvel foi justamente a sensação de que aquele seria o mais próximo de uma casa que conseguiriam encontrar em um apartamento.
A varanda como extensão da casa
Essa relação entre dentro e fora também orientou a paleta. Como a varanda permanece muito visível a partir da sala, as cores precisavam conversar entre si. O terracota acompanha os tijolos presentes na arquitetura do edifício, enquanto o verde aparece como uma maneira de reforçar a presença da vegetação. É uma continuidade visual que ajuda a aproximar ainda mais o apartamento dessa ideia de casa que norteou tantas decisões do projeto.
Detalhes que valem a pena ver por completo!
E há muitos outros detalhes para descobrir, do hall revestido em tecido, pensado sem impedir a ventilação da central de ar-condicionado, ao lavabo quase escondido na marcenaria. A brinquedoteca, assinada por Maria Clara Spyer, completa o projeto e acrescenta mais uma camada a uma casa em que praticamente cada canto tem alguma história para contar.
Vale assistir ao Open House completo no canal do Casa de Valentina. A Augusta vai contando as histórias por trás das escolhas enquanto percorremos o apartamento, e é justamente aí que dá para entender por que esse projeto é tão pessoal: mais do que seguir uma única linguagem, ele foi abrindo espaço para tudo aquilo que os moradores queriam levar para dentro de casa.
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