Acervo, arte e cores em 300m²
17 ago, 2026 | Apartamentos, Acima de 200 m2, Cidade

Fotos: Luiza Schreier / Divulgação
Projeto: Renata Lemos Arquitetura
Produção visual: Rennan Scalabrin
Área: 300m²
Localização: São Conrado, Rio de Janeiro
Móveis garimpados ao longo dos anos, obras de arte, objetos pessoais e referências à vida no campo foram o ponto de partida deste apartamento de 300m², em São Conrado, no Rio de Janeiro. Assinado pela arquiteta Renata Lemos, o projeto de interiores foi desenvolvido para um casal entre 60 e 70 anos, que buscava uma nova casa no mesmo bairro depois que os filhos deixaram de morar com eles.
Em vez de substituir o que já existia, a arquiteta trabalhou a partir do acervo construído pelos moradores ao longo de décadas. A reforma, realizada em um prazo de apenas três meses entre concepção, obra e decoração, concentrou as intervenções na iluminação, no layout, na pintura e em alterações pontuais da planta.
Uma casa construída a partir do acervo
Praticamente todo o mobiliário e os objetos presentes no apartamento já pertenciam à família. A arquiteta realizou uma curadoria para selecionar as peças que seriam levadas para o novo endereço, enquanto parte do acervo permaneceu na casa da serra. Alguns móveis foram reestofados e receberam novos tecidos e cores, e as novas aquisições ficaram restritas a peças como tapetes, luminárias, banquetas, poltronas, mesas laterais e uma estante desenhada sob medida.
A seleção combina peças antigas e design contemporâneo. Aparadores garimpados, um móvel de múltiplas gavetas, um banco de igreja no hall e poltronas de espaldar alto de Armando Cerello convivem com cadeiras de jantar de Jader Almeida, banquetas Manu e o aparador Quilombo, de Arthur Casas.
Essa sobreposição acompanha a própria história dos moradores. O acervo clássico conduziu a uma linguagem mais tradicional, enquanto as referências à casa de campo da família e ao universo equestre aparecem em diferentes pontos do projeto.
Cereja como ponto de partida
A cor tem presença estrutural no projeto. Ceramista e pintora, a moradora pediu que a sala fosse trabalhada em tom cereja. A partir dessa escolha, Renata Lemos criou uma composição que alterna superfícies intensamente coloridas e áreas brancas.
No hall e na área gourmet, o branco cria uma pausa em relação à sala, enquanto as listras cereja fazem a transição entre as superfícies. O piso original de tábuas corridas de ipê foi preservado em toda a área social.
Já na suíte do casal, a paleta muda: o amarelo passa a dominar o ambiente. A escolha também parte da relação da moradora com as cores e é acompanhada por móveis soltos e garimpados, em vez do uso extensivo de marcenaria planejada. Uma cortina em degradê completa a composição.
Arte integrada aos ambientes
As obras de arte não foram acrescentadas ao final da decoração, mas consideradas na organização dos espaços. No hall, uma tela de Amílcar de Castro ocupa uma parede branca e se torna o principal elemento do ambiente. O teto listrado e a sobreposição de tapetes introduzem outros planos visuais sem competir com a obra.
A coleção inclui ainda uma escultura de Veio, uma obra de Luiz Aquila e uma escultura de Mário Sérgio Lopomo. Uma pintura floral realizada pela própria moradora também foi incorporada ao conjunto.
Outro elemento diretamente relacionado à história dos moradores é o piano. Apaixonado pelo instrumento, o proprietário chegou a tentar adquirir o antigo piano de Tom Jobim. Como a negociação não foi possível, escolheu um modelo idêntico, hoje posicionado em destaque na área social.
Integração com intervenções pontuais
O prazo curto orientou também as mudanças de planta. Uma parede foi aberta para integrar a área gourmet à sala, enquanto um dos antigos dormitórios foi incorporado à suíte principal, permitindo ampliar o quarto e criar um closet maior. Nos demais ambientes, as alterações foram mais contidas.
A área gourmet passou a funcionar como extensão da sala, com infraestrutura para cozinhar e receber sem assumir a configuração visual de uma cozinha convencional. Já a área de estar foi organizada em diferentes núcleos de convivência, incluindo uma mesa redonda para as refeições cotidianas. A marcenaria da TV reúne objetos da família e a iluminação foi redesenhada para permitir diferentes cenas ao longo do dia.
Concluído em apenas três meses, o apartamento parte menos da ideia de renovação integral e mais da reorganização do que já fazia parte da vida dos moradores. Acervo, arte, mobiliário e cores orientam as decisões do projeto e transferem para o novo endereço referências acumuladas ao longo de décadas.

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