
Fotos: Adriana Barbosa / Divulgação
Tem Open House novo no canal! E dessa vez fui conhecer o apartamento de Carlos Navero, arquiteto, colecionador e, como ele mesmo se define, um garimpeiro de mão cheia. Eu adoro visitar casas de arquitetos e designers porque são espaços em que as escolhas costumam revelar muito sobre quem mora ali. Aqui, isso aparece em absolutamente tudo.
O apartamento passou por uma reforma completa em apenas três meses. Originalmente com dois quartos, ganhou uma configuração mais adequada à rotina de Carlos, com uma única suíte e lavabo. Janelas foram substituídas, revestimentos renovados e o espaço recebeu uma nova organização para acomodar parte de sua extensa coleção de arte, design e objetos.
Mas o que mais me chamou atenção durante a visita foi perceber que, apesar da quantidade de peças antigas e garimpadas, o apartamento não tem aquele aspecto excessivamente vintage que poderíamos imaginar na casa de um colecionador. Pelo contrário: tudo convive de um jeito muito atual, leve e absolutamente pessoal.
Uma casa construída pelo garimpo
Carlos garimpa há muitos anos e leva esse olhar para praticamente todos os lugares por onde passa. Hoje, dividindo seu tempo entre São Paulo e Madri, ele encontra peças em feiras, leilões, casas de família e mercados de diferentes países. Algumas ficam na Espanha, outras vêm parar por aqui.
Uma das histórias que eu mais gostei é a da luminária Pipistrello. A peça, uma versão antiga originalmente pertencente à Olivetti, foi encontrada na Europa e trazida por Carlos para o Brasil praticamente como uma passageira: o corpo coube dentro de uma mala mais larga e a cúpula veio no colo durante a viagem. Hoje, é praticamente a única luz que ele acende na sala à noite, justamente pela iluminação indireta que cria.
E esse é um pouco o espírito do apartamento inteiro. Não importa apenas quem desenhou determinada peça ou quanto ela vale. Importa onde Carlos a encontrou, quando comprou, por onde ela passou e por que decidiu guardá-la.
Arte, design e muitas coleções
A coleção de arte é impressionante. Carlos trabalhou em galerias antes de se tornar arquiteto, e essa relação com a arte atravessa sua trajetória e, claro, a casa.
Durante a visita, fomos descobrindo trabalhos de diferentes artistas, fotografias, cerâmicas e uma coleção enorme de peças de Abraham Palatnik. Carlos conta que possui cerca de 160 peças do artista, embora apenas parte delas esteja exposta neste apartamento. Também aparecem trabalhos de Adriana Varejão, Nelson Leirner e outros nomes, além de objetos que ele reúne há anos.
Outra paixão são os Muranos. Há exemplares encontrados em diferentes lugares, incluindo uma peça comprada em uma feira próxima à Torre de Belém, em Portugal. É muito interessante acompanhar Carlos explicando essas descobertas porque cada objeto abre uma nova história e, muitas vezes, nos leva para outra cidade, outra época ou outra viagem.
High and low sem medo
Uma das coisas mais divertidas neste apartamento é justamente a mistura. Em determinado momento da visita, Carlos resume tudo muito bem: aqui é “high and low”.
As paredes, por exemplo, foram revestidas com um papel de parede alemão comprado na Leroy Merlin. Já ao redor aparecem obras de arte, peças raras de design, móveis garimpados e objetos trazidos de viagens.
Na sala de jantar, o tecido das cadeiras estava guardado desde 2012, quando Carlos o comprou em Paris. Como era fino, foi dublado para ganhar resistência antes de ser usado no estofamento. A casa tem muito verde, pontuado pelo vermelho, e essas cores vão criando conexões entre peças que têm origens completamente diferentes.
Tem ainda uma cadeira de Geraldo de Barros para a Unilabor, que já passou por diferentes revestimentos, e um banco da Cappellini encontrado, para minha surpresa, na Feira do Bixiga. É justamente essa liberdade que eu acho tão interessante aqui: nada parece ter sido comprado para simplesmente “combinar”. As coisas se encontram porque fazem sentido para quem mora ali.
Soluções simples com muita personalidade
E, no meio de tantas peças especiais, também encontrei soluções que são ótimas ideias para levar para casa. Uma delas é a estante vermelha da sala. Em vez de desenhar uma marcenaria sob medida, Carlos encontrou módulos metálicos coloridos e instalou três lado a lado. Como recebem muitos livros e objetos, eles foram fixados diretamente na parede para garantir estabilidade.
As próprias obras foram posicionadas levando em consideração elementos existentes no ambiente, inclusive para esconder tomadas que pertenciam ao ponto de televisão. Aliás, não há TV na sala: ela ficou apenas no quarto.
São decisões assim que deixam claro que uma casa interessante não depende necessariamente de soluções complicadas. Muitas vezes, é o repertório, o olhar e a capacidade de enxergar novas possibilidades para aquilo que já existe que fazem toda a diferença.
E eu poderia continuar contando histórias de cada canto desse apartamento: tem objeto trazido da Índia, achado de feira, peça de leilão, lembrança de viagem, arte brasileira, design italiano e muitas outras descobertas.
Mas aí eu vou acabar entregando o Open House inteiro por aqui! Então, se você também adora entrar em uma casa e descobrir não apenas o projeto, mas as histórias por trás de cada escolha, assista ao vídeo completo no canal do Casa de Valentina no YouTube. A visita está cheia de garimpos, referências e boas ideias para olhar para a própria casa de outro jeito.

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