Resgate dos anos 50 e 60 no museu CARDE
21 maio, 2026 | Até 50 m2, Cidade

Fotos: Marco Antonio / Divulgação
Escritório: Robert Robl Arquitetura
Marcenaria: Madeé
Área: 49m²
Localização: Campos do Jordão, São Paulo
Como traduzir a atmosfera efervescente do final dos anos 1950 e início dos anos 1960 em um projeto contemporâneo? Esse foi o desafio do arquiteto Robert Robl ao assinar um espaço cenográfico único dentro do Museu CARDE, localizado no bairro de Boa Vista, em Campos do Jordão, São Paulo. O convite, feito diretamente pelo proprietário do museu e viabilizado através da indicação da Mobilia Afetiva, tinha uma premissa clara e fascinante: ambientar um espaço que retratasse a sala de estar e a cozinha de uma morada modernista daquela época. Para guiar a narrativa, o projeto deveria simular o estilo de vida de um jovem casal paulistano, fictício, apaixonado por arte e design, e orgulhoso proprietário de um icônico carro Romi-Isetta vermelho.
O ponto de partida para a construção desse enredo foi a própria história do automóvel. O Romi-Isetta foi o primeiro carro produzido em série no Brasil, marcando o início da indústria automobilística nacional e tornando-se um símbolo de mobilidade compacta no pós-guerra. A partir de pesquisas históricas, Robert Robl identificou que o público-alvo desse veículo inovador era composto por jovens executivos, artistas e intelectuais de São Paulo que tinham acesso à cultura e estavam conectados com os movimentos de vanguarda da época. Para dar vida a essa narrativa, o carro vermelho foi posicionado em um espaço expositivo vizinho à sala projetada, fazendo com que todo o projeto orbitasse ao seu redor.
A partir dessa premissa, toda a seleção do mobiliário e das obras de arte passou a refletir o gosto desse casal imaginário, focado em prestigiar o design modernista brasileiro, sem perder de vista a sutil conexão com o design moderno italiano, uma homenagem direta à origem do desenho da própria Romi-Isetta. Para envelopar o ambiente com a elegância da época, o arquiteto optou por revestir grande parte das paredes com lâmina de pau-ferro, uma madeira nobre, escura e extremamente marcante do período. O grande destaque arquitetônico estrutural é a parede curva que emoldura a mesa de jantar, inspirada livremente nas linhas fluidas da icônica Casa das Canoas de Oscar Niemeyer.
“A ideia foi ter o carro exposto em um espaço ao lado da sala que projetei. Pesquisando sobre o carro vi que o público alvo eram jovens executivos, artistas ou gente ligada à arte e design da época. Imaginamos um casal jovem de São Pulo que tinha acesso à arte e design focado em comprar e prestigiar o design modernista brasileiro dos anos 50-60.”
Subvertendo o uso tradicional do ripado de madeira, Robl revestiu essa superfície sinuosa com filetes verticais de espelho. O resultado é um efeito visual dinâmico de multiplicação e reflexo que remete à Optical Art, movimento artístico que ganhava força justamente na virada para a década de 1960. Seguindo a mesma fidelidade histórica, a área da cozinha ganha força com o uso dos azulejos da série N01 fornecidos por Noel Marinho (@noel_marinho) e desenhados originalmente pelo artista no final dos anos 1950, trazendo a geometria, a herança do azulejaria nacional e o rigor abstrato característicos do período para o plano vertical.
A curadoria do mobiliário, viabilizada em grande parte pela parceria fundamental com a Mobilia Afetiva (@mobiliaafetiva), mescla peças do acervo do próprio cliente com complementos minuciosos do arquiteto, criando uma verdadeira galeria do design moderno. No estar, o tapete foi desenhado exclusivamente pelo escritório de Robert Robl, trazendo referências geométricas que flertam com o final do movimento Art Déco. Cada assento e apoio conta uma história: o clássico Banco Cinthia, assinado por Sérgio Rodrigues, assume com maestria a função de mesa de centro, enquanto o conjunto de jantar é composto por cadeiras de Geraldo de Barros, iluminadas por um lustre original de época da marca Dominici.
A elegância do living é pontuada por um sofá de Giuseppe Scapinelli e um par de poltronas em tom terracota de Joaquim Tenreiro. Próximo ao carrinho de bar, também de Scapinelli, destaca-se uma cadeira em veludo verde de Lina Bo Bardi. Além delas, uma poltrona bicolor em cru e verde atribuída a Scapinelli foi estofada em duas cores, uma referência direta ao estilo do mestre italiano Gio Ponti. A decoração também recria o comportamento de consumo da classe artística daquele tempo, tratando a televisão — que nos anos 1950 era uma novidade tecnológica absoluta e um símbolo de extremo luxo — como uma verdadeira obra de arte, posicionando o aparelho vermelho dentro de uma caixa de acrílico transparente.
As paredes ganham peso histórico com fotografias originais em preto e branco de Thomaz Farkas, registrando a época da construção de Brasília — o ápice da utopia modernista brasileira. Sobre o buffet e a vitrola de época, repousam esculturas de Bruno Giorgi e uma pintura de Hércules Barsotti. Com essa perfeita fusão entre cenografia, arquitetura de interiores e resgate histórico, Robert Robl entrega no Museu CARDE uma verdadeira cápsula do tempo que celebra o auge da identidade visual e do design nacional.


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