09 2026

Minimalismo e referências mediterrâneas

04 set, 2026 | Apartamentos, De 100 a 200 m2, Cidade

Fotos: Júlia Tótoli / Divulgação
Escritório:
Studio Clarice Semerene
Produção visual: Studio Clarice Semerene e Júlia Lucena
Área: 130m²
Localização: Asa Sul, Brasília, DF

Como conciliar, em um mesmo apartamento, referências que partem de lugares quase opostos? De um lado, um repertório minimalista, funcional e sóbrio. Do outro, o desejo por uma atmosfera acolhedora, com referências mediterrâneas e certo romantismo. No apartamento Neko, reforma de 130 m² assinada pelo Studio Clarice Semerene, essa diferença foi justamente o ponto de partida do projeto.

Localizado em um edifício modernista assinado por Oscar Niemeyer, na Asa Sul, em Brasília, o apartamento pertence a um casal e suas três gatas. Um dos moradores já havia trabalhado anteriormente com o escritório em seu antigo apartamento e voltou a procurá-lo quando a mudança de casa passou a acompanhar também uma nova configuração de vida.

“Por mais desafiador que fosse, o apartamento Neko conseguiu atender a todos os gostos com perfeição. A sensação é realmente a de viver em uma casa feita sob medida para as necessidades e preferências de cada um dos seus habitantes, sejam eles humanos ou felinos”, contam os moradores.

Uma curva organiza a área social

A reforma aproveitou características da arquitetura original, entre elas as aberturas generosas e a planta livre. Uma particularidade existente acabou determinando um dos principais gestos do novo projeto: a porta de entrada estava posicionada a 45 graus em relação às demais paredes da área social.

Em vez de tentar corrigir essa geometria, o escritório partiu dela para desenhar uma parede curva que conecta cozinha e sala de estar. Revestida com textura verde, ela cria continuidade entre os ambientes e incorpora prateleiras camufladas em laca fosca no mesmo tom.

É também nesse elemento que a arquitetura passa a considerar uma escala diferente da humana. As prateleiras formam percursos pelos quais as três gatas podem circular e explorar a casa verticalmente. Na parte inferior, a estrutura acomoda a coleção de discos do casal e ajuda a configurar uma das funções da sala: a apreciação musical.

Um sofá-ilha responde à multiplicidade de usos. Uma de suas faces se volta para a música; a outra, para a televisão, evitando que a sala seja organizada em torno de uma única atividade.

Cozinha para cozinhar e receber

A cozinha também foi tratada como parte da área social. Para o casal, cozinhar é uma atividade compartilhada e uma maneira de receber os amigos, o que levou à integração do ambiente com as salas de estar e TV.

A ilha alongada concentra a área de cocção e se prolonga para formar uma mesa de jantar com seis lugares. Sua posição permite que quem cozinha permaneça em contato tanto com os convidados quanto com a paisagem vista pelas janelas.

Nos armários, o louro-pardo introduz uma madeira natural escura, enquanto contornos em alto-relevo nas portas superiores acrescentam textura à composição. O quartzito aparece nas superfícies e integra a paleta de materiais naturais escolhida para todo o apartamento.

Entre o mediterrâneo e o modernismo

As referências mediterrâneas desejadas por uma das moradoras aparecem principalmente nos arcos, mas foram reinterpretadas a partir de um desenho mais limpo, aproximando-se da preferência minimalista do companheiro.

Essa solução fica evidente no escritório, destinado ao trabalho remoto e aos estudos de piano. Nichos em arco acomodam livros, objetos, piano e bancada de trabalho. O ambiente mantém conexão visual com a área social por meio de esquadrias de ferro e vidro.

O desenho dos montantes, por sua vez, estabelece outra relação importante: inspira-se na fachada original do edifício de Oscar Niemeyer. Assim, uma referência trazida pelos moradores encontra elementos da própria arquitetura modernista que abriga o apartamento.

Materiais e cores atravessam os ambientes

A mesma linguagem continua na área íntima. Na suíte, paredes curvas envolvem o quarto, enquanto uma bancada reúne penteadeira e um nicho para a vitrola. O closet é separado por portas de ferro pintadas de verde e vidro canelado, novamente desenhadas com arcos.

Nos banheiros, o ladrilho hidráulico aparece em verde e amêndoa. No banheiro do casal, o verde demarca o box, onde chuveiro e banheira de imersão dividem o mesmo espaço. Madeira e quartzito compõem a bancada dupla, enquanto o lavabo recebe estucamento nas paredes, lavatório esculpido em quartzito e piso em ladrilho hidráulico.

A paleta se mantém concentrada em materiais naturais, madeira escura e cores como verde e terracota. Em vez de reproduzir literalmente um estilo, o projeto usa esses elementos para construir um ponto intermediário entre as referências dos dois moradores.

Uma casa também desenhada para as gatas

O nome Neko, que significa “gato” em japonês, sintetiza uma dimensão importante do projeto. Além de homenagear as três gatas, faz referência ao simbolismo associado pelos moradores aos felinos, ligado a ideias de espiritualidade, proteção, equilíbrio e paz.

A presença delas, portanto, não aparece apenas em acessórios acrescentados posteriormente. A circulação vertical foi incorporada ao próprio desenho da área social, fazendo com que necessidades humanas e felinas compartilhem os mesmos elementos arquitetônicos.

É justamente nessa sobreposição que o apartamento encontra sua unidade: minimalismo e referências mediterrâneas, música e trabalho, espaços para receber e percursos para as gatas deixam de ser demandas isoladas e passam a fazer parte de uma mesma arquitetura.