
Fotos: Estúdio NY18 / Divulgação
Há casas em que o projeto começa pela escolha de tudo o que será novo. Nesta, o ponto de partida foi também reconhecer o que merecia permanecer. No novo Open House do Casa de Valentina, eu fui conhecer o apartamento onde Helena Kallas, à frente da Mandril Arquitetura, vive com o marido, David, o filho, Joaquim, o cachorro Freud e a peixinha Lola.
Localizado em um edifício de 1969, o imóvel de 140 m² foi o primeiro apartamento comprado e reformado pelo casal. Logo na visita inicial, dois elementos definiram a escolha: o piso original de parquet e o janelão do piso ao teto, que mantém o living iluminado durante boa parte do dia. A partir deles, a reforma atualizou a infraestrutura e reorganizou a planta sem eliminar as características que haviam despertado o interesse da família.
Uma planta ajustada à vida da família
A obra, realizada ao longo de sete meses, incluiu a substituição das instalações elétricas e hidráulicas e a renovação das áreas molhadas. Como não havia registros completos da construção original, compreender a estrutura foi um dos principais desafios. Informações da síndica e de outros moradores ajudaram a localizar prumadas, identificar paredes passíveis de remoção e verificar as possibilidades de alteração dos banheiros.
As mudanças de circulação foram pontuais, mas decisivas. O antigo acesso entre a cozinha e a área íntima foi fechado, ampliando a suíte e criando mais superfície útil para armários na cozinha. O banheiro de serviço passou a ser acessado pelo living e se transformou em lavabo. A passagem entre a sala de jantar e os quartos foi centralizada e recebeu duas folhas de correr com trilho oculto, enquanto o acesso à cozinha ganhou um vão mais amplo e sem porta.
A nova distribuição acomoda três dormitórios: a suíte do casal, o quarto de Joaquim e um escritório. Na suíte, a cama foi posicionada de costas para a janela para liberar as paredes para um armário em L e permitir a inclusão da banheira no banheiro. No quarto do filho, a cama de casal e a cama superior já consideram tanto o crescimento de Joaquim quanto os amigos que dormem na casa. A escrivaninha herdada participa dessa composição sem parecer deslocada.
A cor como continuidade
A casa é vibrante, mas a cor não aparece como uma sucessão de efeitos isolados. No living, o tom Cogumelo Shitake ocupa a parte inferior das paredes e o Papel Picado, mais claro, segue acima. Uma linha preta muito fina separa as duas faixas. O desenho bicolor percorre todo o ambiente e continua na cortina e na porta de marcenaria laqueada, fazendo com que arquitetura, tecido e mobiliário sejam lidos como uma única composição.
Marrons avermelhados, tons de doce de leite e verde-oliva formam a base da área social. O quartzito Aurora Borealis do bar acrescenta outra variação de verde, enquanto uma tapeçaria tropical dos anos 1970 reúne bordô e ocre sobre o sofá.
Na cozinha, a cerâmica artesanal verde contrasta com a marcenaria em Nogueira Caiena e o mármore branco Paraná. No lavabo, o azul dos revestimentos prepara o fundo para metais antigos de latão e um vaso sanitário também azul, hoje fora de linha.
Sem forro de gesso, o projeto de iluminação combina um trilho técnico sobre a laje com perfis de LED e spots. Pendentes, abajures, plafons e arandelas criam uma segunda camada, mais baixa e indireta. Assim, a família pode alternar entre uma luz homogênea para a rotina e cenas mais suaves para descansar ou receber.
Peças antigas, novas funções
É na relação com os objetos que este apartamento revela sua ideia central. Móveis de jacarandá produzidos pela fábrica Novo Rumo na década de 1960 foram restaurados e voltaram ao uso na sala de jantar. A poltrona de espaldar alto recebeu camurça verde-oliva. Luminárias Dominici de vidro martelado, também dos anos 1960, passaram a iluminar a mesa. A escrivaninha de aço do antigo escritório do avô de Helena agora acompanha Joaquim nos momentos de estudo.
O reaproveitamento mais inventivo talvez esteja na mesa de centro. Durante a retirada dos revestimentos da cozinha, os antigos azulejos foram preservados e usados pelo pai de Helena para construir o tampo do novo móvel. Em vez de permanecerem apenas como vestígio da reforma, eles retornam ao cotidiano com outra escala e função.
No lavabo, torneira, arandela, válvula e acessórios vieram do apartamento dos avós. O desenho detalhado dos metais de latão, incluindo uma torneira em que a água sai pela boca de um peixe, transforma elementos funcionais em pontos de interesse. Há ainda um espelho encontrado em uma caçamba em Higienópolis, obras produzidas com amostras de cerâmica, elementos metálicos que antes ocupavam as paredes da casa do avô e carrancas compradas em Luanda.
Nada aparece como cenário intocável. O sofá de quase quatro metros, que acompanha Helena há mais de dez anos, ganhou um novo tecido. Amostras de azulejos viraram quadros, peças de uma mostra de decoração foram emolduradas e vasos de barro feitos à mão no Piauí recebem as muitas plantas favorecidas pela luz natural. A casa demonstra que preservar não significa manter tudo igual, mas encontrar maneiras de recolocar materiais e objetos em circulação.
Um projeto visto de perto
Ao longo do Open House, cada escolha ajuda a entender como a Mandril Arquitetura conciliou a estrutura de um apartamento antigo com as necessidades atuais da família. A marcenaria, os revestimentos artesanais, o desenho da luz e os móveis herdados não disputam protagonismo: juntos, constroem uma casa pessoal e preparada para o uso diário.
No vídeo completo, mostro os detalhes que fazem essa mistura funcionar, da porta de correr sem ferragens aparentes ao quarto de Joaquim, da banheira encaixada na suíte às soluções de iluminação do living. Assista ao novo Open House no canal do Casa de Valentina clicando aqui e venha percorrer este apartamento comigo.

Deixar um comentário