09 2026

Concreto organiza apartamento integrado em Brasília

07 set, 2026 | Apartamentos, De 100 a 200 m2, Cidade

Fotos: Júlia Tótoli / Divulgação
Projeto:
Rava Arquitetos
Área: 140m²
Localização: Asa Sul, Brasília – DF

Em um apartamento de 140m² na Asa Sul, em Brasília, a Rava Arquitetos partiu das características existentes do imóvel para reorganizar os espaços de acordo com a rotina de um casal que, durante a obra, se tornou uma família de três. O projeto preserva elementos originais, amplia a integração da área social e concentra diferentes funções em poucas intervenções arquitetônicas.

Antes de comprar o imóvel, os clientes já haviam procurado o escritório para projetar uma casa. A experiência de morar no Plano Piloto, porém, mudou os planos. A qualidade de vida das superquadras levou o casal a adiar a construção e procurar um apartamento na mesma quadra onde vivia de aluguel. A Rava participou inclusive da escolha da nova unidade, avaliando as possibilidades de transformação de cada imóvel.

Preservar antes de transformar

Um dos pontos de partida foi manter aquilo que já funcionava. Todo o piso de madeira existente foi preservado, assim como uma adega de madeira original do apartamento, posteriormente incorporada à nova marcenaria. A estratégia reduziu intervenções e ajudou a estabelecer a materialidade do projeto.

Entre os principais pedidos estavam ambientes leves e funcionais, maior integração e a valorização de características próprias do apartamento, como a iluminação e a ventilação naturais e as vistas para as copas das árvores e para o horizonte de Brasília.

A configuração também precisava responder a uma rotina bastante específica. Sem familiares na cidade, o casal recebe hóspedes com frequência e, ao mesmo tempo, precisava trabalhar em casa. Um dos cômodos passou, então, a reunir três funções: home office, estúdio de música e quarto de hóspedes. Bancada, instrumentos e equipamentos de áudio foram organizados de maneira a permitir que o ambiente alternasse entre trabalho, produção musical e hospedagem.

Uma peça de concreto e muitas funções

Na área social, a solução central do projeto é um elemento contínuo de concreto que percorre a sala em “L”. Em vez de distribuir diferentes móveis pelo espaço, a peça concentra funções: cria assentos extras para os encontros, serve de apoio para objetos, recebe um rebaixo para chaves junto à entrada e reserva um espaço para os sapatos. Na outra extremidade, conecta-se à mesa de jantar por meio de uma rampa.

Essa continuidade ajuda a manter a sala aberta mesmo quando a casa está cheia. Também permite usos menos previstos: quando o ambiente multifuncional está ocupado por hóspedes, a conexão entre mesa e banco junto à janela pode funcionar como um segundo ponto de home office.

Na cozinha, completamente integrada à sala, a questão era permitir que os moradores cozinhassem enquanto recebiam sem deixar toda a bancada de preparo exposta. A ilha foi desenhada em dois níveis: a superfície de trabalho fica mais baixa, enquanto a área das banquetas se eleva o suficiente para esconder utensílios, panelas e alimentos, preservando a relação visual entre os ambientes.

Nem todas as decisões, porém, estavam previstas no desenho inicial. Durante a demolição, pilares estruturais apareceram em posições diferentes das esperadas. As bancadas e os elementos da cozinha foram redesenhados para incorporá-los à composição, em vez de tentar escondê-los.

Uma rampa que mudou de dono

Talvez a solução que melhor revele a relação entre arquitetura e cotidiano seja justamente a rampa de concreto. Ela surgiu por causa de Cora, a chihuahua da família. No apartamento anterior, a cachorrinha costumava observar a rua através das esquadrias que iam do piso ao teto. Como as janelas da nova casa possuem peitoris mais altos, a Rava desenhou a rampa para que ela pudesse chegar ao banco e continuar alcançando a vista.

Durante a obra, porém, nasceu Guto, primeiro filho do casal. Depois da mudança, a peça concebida para Cora ganhou outro uso: tornou-se o escorregador preferido da criança. A adaptação espontânea resume uma das ideias presentes no apartamento: criar elementos suficientemente abertos para que a casa possa mudar junto com quem vive nela.

Essa flexibilidade também aparece no relato da moradora. Para ela, a integração mantém a família próxima e facilita receber amigos, enquanto a base mais atemporal permite que a casa continue sendo construída nos detalhes ao longo dos anos. Entre seus espaços preferidos estão justamente elementos preservados ou tratados de maneira particular pelo projeto, como a adega original e o lavabo com azulejos e luminárias artesanais.