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Mulheres, arquitetura e o morar: uma conversa necessária | Em Casa com Ana Gabriela Godinho Lima

Fotos: Arquivo pessoal / Reprodução
Gravar este episódio do Em Casa teve um significado especial. Em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres, quis abrir uma conversa sobre um tema que atravessa a arquitetura de maneira profunda, mas que nem sempre recebe o destaque que merece: a relação entre mulheres e arquitetura. Para isso, convidei a professora doutora Ana Gabriela Godinho Lima, arquiteta, pesquisadora e docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que há anos se dedica a estudar questões de gênero e feminismo dentro e fora do mundo acadêmico.
Começamos falando sobre algo que parece simples, mas que na verdade revela muito: quem aparece na história da arquitetura. Durante muito tempo, aprendemos sobre grandes nomes, mas quase sempre homens, enquanto muitas arquitetas simplesmente desapareceram das narrativas oficiais. Ana Gabriela comenta como hoje professores e alunos têm buscado recuperar essas histórias e trazer à tona profissionais que foram invisibilizadas ao longo do tempo, como Lígia Nobre e Zélia Maia Nobre. Não existe ainda uma diretriz obrigatória para incluir essas trajetórias nos currículos, mas felizmente há um movimento crescente dentro das universidades.
A conversa também passa por uma mudança de olhar sobre o que consideramos uma “grande obra” na arquitetura. Nem sempre são apenas edifícios monumentais que merecem estudo. Muitas vezes, são projetos que impactam a vida cotidiana das pessoas, como casas, bairros e soluções urbanas que transformam de fato a experiência coletiva. Nesse sentido, Ana Gabriela levanta uma reflexão interessante: e se pensarmos os projetos não como fruto de um único autor, mas como resultado do trabalho de muitas mãos?
Outro ponto fundamental da nossa conversa foi o papel da documentação. Parece um detalhe técnico, mas faz toda a diferença para quem pesquisa arquitetura. Quando projetos, desenhos e registros não são preservados, parte da história simplesmente se perde, e isso aconteceu muitas vezes com o trabalho de mulheres. Sem documentação, fica muito mais difícil reconstruir essas trajetórias e compreender suas contribuições.
Falamos também sobre como o olhar feminino influenciou diretamente a forma como entendemos a casa. Nas pesquisas de Ana Gabriela sobre mulheres dos séculos XIX nos Estados Unidos e na Inglaterra, aparecem figuras que transformaram a lógica do morar. Uma delas é Catherine Beecher, que ajudou a estruturar ideias fundamentais da casa moderna, como a organização da cozinha, a circulação eficiente e o cuidado com as necessidades práticas do dia a dia. Afinal, quem vivia intensamente esses espaços sabia muito bem como eles deveriam funcionar.
Quando a conversa avança para o presente, inevitavelmente surge a pergunta: que arquitetura faz sentido hoje? Em cidades com espaços cada vez menores e inúmeros desafios urbanos, Ana Gabriela traz reflexões do livro Cidade Antifrágil — Uma perspectiva para os lugares num futuro de incertezas, organizado por Caio Esteves, no qual ela escreveu o capítulo “Cidades femininas antifrágeis”. A ideia passa por pensar cidades que coloquem o bem-estar no centro e valorizem práticas de convivência, como o simples, mas poderoso, ato de compartilhar refeições em família.
Também falamos sobre algo que infelizmente ainda faz parte da experiência cotidiana de muitas mulheres: a sensação constante de risco. Essa percepção influencia diretamente a forma como caminhamos pelas cidades, como pensamos os espaços públicos e, claro, como projetamos arquitetura e urbanismo. No final da conversa, Ana Gabriela compartilha uma reflexão que vai além da arquitetura: a importância de ser autora da própria vida e de se conhecer profundamente. E deixo aqui um pequeno spoiler do nosso encerramento: fiz uma pergunta direta para ela: “o que dizer para quem ainda acredita que gênero não é um tema relevante dentro da arquitetura?”
A resposta é potente, e convido você a ouvi-la da própria Ana Gabriela no episódio completo do Em Casa no YouTube. Tenho certeza de que, depois de assistir, você também vai olhar para a história da arquitetura e para as cidades em que vivemos com outros olhos.
Aperte o PLAY para assistir ao videocast completo.
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