06 2026

Living Ritmo Vital: o manifesto de desaceleração e conexão ancestral da Maai Arquitetura na CASACOR SP 2026

16 jun, 2026 | Mostras, Até 50 m2, Cidade

Fotos: MCA Estúdio / Divulgação
Escritório: Maai Arquitetura
Área: 83m²
Localização: CASACOR São Paulo 2026

Em um mundo marcado pelo imediatismo, excesso de telas e estímulos digitais constantes, a arquitetura assume um papel fundamental como ferramenta de cura, pausa e reconexão. Alinhada perfeitamente ao tema central “Mente e Coração” da CASACOR São Paulo 2026, a Maai Arquitetura Integrada — trio formado pelos renomados arquitetos Mônica Pinto, Arnaldo Pinho e Isabel Veiga — traz em sua segunda participação na mostra paulistana o deslumbrante Living Ritmo Vital.

Com 83 m², o espaço vai muito além de uma simples tendência estética. Trata-se de um manifesto arquitetônico sobre permanência, presença e o tempo como regulador das nossas sensações. Inspirado profundamente na sabedoria das ancestralidades indígenas, que enxergam a natureza como um organismo vivo e interligado, o living propõe o conceito do lar como um verdadeiro santuário espiritual e físico. É um convite irrecusável para cadenciar a respiração e acalmar os sentidos.

Um percurso sensorial desenhado em camadas

A circulação do Living Ritmo Vital foi projetada meticulosamente como uma narrativa espacial que guia o visitante por diferentes estados de espírito e intimidade:

1. O núcleo de partilha (o encontro)

A jornada começa no acolhedor Núcleo de Partilha, cuja disposição é inteiramente pautada na circularidade — um gesto ancestral que simboliza escuta, comunhão e permanência. Inspirado nas tradicionais rodas ao redor do fogo, o ambiente destaca o magnífico sofá Bardot, assinado por Felipe Protti (Prototype). A peça foi escolhida justamente para resgatar a ideia do convívio como um ritual, transformando o ato de sentar em um momento onde as histórias fluem e o tempo desacelera.

2. O entre-ritmos (a pausa)

Logo em seguida, o visitante adentra o Entre-ritmos, uma área de transição desenhada estrategicamente como um ponto de descompressão sensorial. Aqui, o design propõe pausas sutis por meio de um contraste poético no mobiliário: a mesa de chá Mariana (peça autoral da Maai feita em madeira imbuia pela San German) sugere encontros rápidos e dinâmicos. Em contraponto, as históricas poltronas de Percival Lafer (1967) trazem a carga afetiva e o peso do que é duradouro. Unindo estes eixos, o tapete lançamento da Via Star entra com responsabilidade sustentável, tecido de forma artesanal em tear manual com fibras de PET reciclado na elegante cor chocolate.

3. A fonte de celebração (a conexão)

O trajeto deságua na Fonte de Celebração, um bar sofisticado que concentra a energia social do espaço sem perturbar sua quietude. Esculpido em mármore imponente e atravessado pela leveza do vidro, o bar exibe garrafas de cachaça dispostas de forma quase ritualística. A mensagem aqui é clara: a celebração deve ser entendida como uma continuidade e um brinde à vida, nunca como um excesso.

4. O ritual de purificação (a introspecção)

O ápice da jornada se recolhe no Ritual de Purificação, um lavabo poeticamente inserido dentro de uma estrutura inspirada nas ocas indígenas. Totalmente revestido em fio de palha de buriti (produzido artesanalmente em Fortaleza/CE), o espaço cria uma atmosfera silenciosa, íntima e meditativa. O ato cotidiano de lavar as mãos deixa de ser meramente funcional e passa a ser uma experiência consciente de conexão com o próprio corpo e com o essencial.

A força da matéria-prima e a arquitetura sensorial

Um dos grandes trunfos da Maai Arquitetura neste projeto é a forma como revestiram o teto e as paredes. As esteiras de palha Carnaúba, trançadas à mão em Minas Gerais e aplicadas sobre uma estrutura sustentável de madeira pinus, abraçam o visitante. Essa fibra natural atua como uma superfície de acolhimento físico e acústico: ela absorve ruídos, filtra a iluminação e suaviza a reverberação do som, gerando um casulo introspectivo longe do barulho da metrópole.

Curadoria de arte e mobiliário autoral disruptivo

Para complementar a atmosfera de santuário, o escritório realizou uma curadoria impecável de peças que transitam entre o design de alto padrão e a legítima arte indígena brasileira. O garimpo, feito na galeria Herança Cultural, trouxe para o living os impressionantes bancos Capivara e Tamanduá Bandeira, criados por Uhuru Mehinaku, mestre artesão do grupo indígena Mehinaku (Xingu/MT). As peças são esculpidas em piranheira (madeira amazônica) com acabamento tradicional em cera de abelha, resina de ingá, carvão e concha de caramujo. Somam-se a eles a poltrona Tronco, de Nem Artesão, e a Cadeira II, de Pedro Ávila (em eucalipto e latão fundido).

A Maai também brilha em suas criações autorais inéditas:

  • O Bar Escultórico: Inspirado na anatomia de uma pata de elefante, o móvel desenhado em parceria com a designer Ariel Pinho (Artekura) abusa de volumes robustos em freijó e sucupira, criando a instigante ilusão de flutuar sobre pequenas patas, com puxadores que simulam pegadas em grande escala.

  • A Mesa de Centro: Esculpida pela Defriuri Mármores em mármore Travertino Giallo (fornecido pela Boutique Della Rocca), a peça quebra o óbvio das formas orgânicas comuns do mercado e surge com linhas pontiagudas e arquitetônicas de forte impacto visual.

Sustentabilidade humana e afetiva

No Living Ritmo Vital, a sustentabilidade se manifesta de forma leve e genuína. Ela não é contada em números frios, mas sim através da escolha de materiais pouco processados, técnicas artesanais que preservam a cultura de comunidades tradicionais brasileiras e peças que carregam memória. O projeto propõe, acima de tudo, uma desaceleração do consumo desenfreado e uma reconexão com processos de produzir e habitar mais afetuosos, duradouros e humanos.