Olá queridos e queridas paisagistas que me leem. Que alegria estar aqui em mais um dos nossos encontros semanais para falarmos sobre novas e melhores formas de vivermos em cidades. Bem, você que me acompanha já deve ter notado que eu escolhi chamar esta coluna aqui de A Nova Cidade. Hoje eu senti a inspiração de compartilhar um pouco com você o que é isso que chamo de “nova cidade”, o que quero dizer com essa expressão. Vamos nessa? Então, antes de mais nada, quero te pedir para olhar com calma para esta imagem que eu vou te mostrar logo abaixo e tente adivinhar o que é isso que está desenhado nessa imagem. Não vale continuar lendo o texto sem ao menos passar um tempinho analisando a imagem, combinado? A imagem é esta aqui:

Fonte: Aziz Ab Saber

E aí? Qual é o seu palpite? Vou adorar saber, se você quiser compartilhar nos comentários abaixo. Bem, isso que está desenhado aí nessa imagem acima é um croqui, feito pelo geógrafo Aziz Ab Saber. Nesse croqui, ele representa todos os rios presentes na cidade de São Paulo. Sim, você leu corretamente: rios de São Paulo, mais precisamente 4 mil quilômetros de cursos d’água que deslizam sobre a cidade.

Mas cadê esse monte de rios? Boa parte deles, hoje em dia, corre por dentro de canos, debaixo de grandes avenidas como a 9 de Julho, a 23 de Maio, a Pacaembú, a Sumaré, entre muitas outras. Na verdade, São Paulo foi fundada no exato ponto onde três importantes rios se encontravam, dando acesso fluvial a diversos locais importantes e estratégicos da região. Mas, com o tempo, esses rios tão valiosos começaram a ser considerados como obstáculos para o desenvolvimento e foram sendo retificados, canalizados, cobertos, poluídos, de tal forma que hoje mal podemos enxergar nessa grande cidade esses cursos d’água.

Se São Paulo tivesse seguido um rumo diferente de urbanização, a sua forma e a forma como se vive nela poderiam ser completamente diferentes. As pessoas poderiam, por exemplo, pegar um barco ali na altura do parque do Ibirapuera e navegar até o mercadão municipal, no centro da cidade, comprar queijos e castanhas (rápida digressão apenas para comentar: nossa, que saudade de poder ir ao mercadão comprar queijos e castanhas…), depois voltar de barco para casa. São Paulo poderia ser uma cidade parecida com Veneza ou Amsterdã, por exemplo. Imagina só! Mas… o caminho que escolhemos foi um pouco diferente. E essa vocação fluvial de São Paulo foi tendo suas águas reprimidas por paredões de concreto.

Mas, no ponto em que estamos hoje, seria possível transformar isso, recuperar esses rios? Bem, deixe eu te contar uma outra história. Essa história se passou em uma cidade chamada Portland, que fica no Estado do Oregon, na costa oeste dos Estados Unidos. Portland é uma cidade onde chove muito. Mas assim, quando eu digo muito, é muito MESMO. Estive lá alguns anos atrás com minha bicicleta dobrável e eu voltava encharcada para casa praticamente todos os dias da viagem. E esse tanto de água caindo do céu era totalmente incompatível com o material impermeável de que era feito o asfalto das ruas. Resultado: muitas enchentes e alagamentos. E, com tantos transtornos, aquela característica climática da cidade começou a ser enxergada como um defeito, um problema com o qual era preciso lidar sempre que chovia – ou seja: sempre!

Até que um dia, lá na década de 90, alguns arquitetos e urbanistas começaram a se perguntar: e se nós parássemos de brigar com a chuva? E se, em vez de olhar para ela como um problema, passássemos a olhar como uma característica da cidade? Mais do que isso: como uma oportunidade de inovação? Esses questionamentos levaram à criação do programa Grey to Green, que visava substituir toda a infraestrutura cinza (aquele asfalto impermeável) por uma infraestrutura verde (permeável e, sempre que possível, feita com terra e plantas), para que a água pudesse ser escoada, alimentasse os lençóis freáticos e então chegasse ao rio Willamette, que corta a cidade ao meio. O programa foi sendo implementado ao longo de muitos anos, substituindo pouco a pouco o asfalto por novas tecnologias de concreto permeável, que eram desenvolvidas na universidade local. Na verdade, esse programa foi fundamental para que Portland pudesse se tornar um polo mundial de inovação na criação de concreto permeável. E, na verdade, a cidade era o laboratório ideal para criar esse tipo de inovação, já que lá chove quase todo dia, então as oportunidades de testes e aprimoramentos são praticamente diárias!

Essa transformação teve um maravilhoso “efeito colateral”. Ao escoar pelos lençóis freáticos para chegar até o rio, a água chegava muito mais pura e o rio ficava a cada ano mais limpo. Tanto que, após alguns anos, foi possível voltar a utilizar o rio para nadar, mergulhar e confraternizar, como podemos ver nas fotos abaixo.

Rio em Portland, Oregon – EUA – Imagens divulgação

Rio em Portland, Oregon – EUA – Imagens divulgação

Rio em Portland, Oregon – EUA – Imagens divulgação

Essa vocação de espaço de lazer sempre esteve presente nesse rio. Ela só na era enxergada, porque antes o rio vivia sujo. E o rio ficou mais limpo quando a característica natural do clima da cidade foi aceita e utilizada como oportunidade de inovação. É como se essa história da cidade de Portland fosse uma jornada da cidade se alinhando com o seu propósito – ser um polo mundial de inovação em concreto permeável e inspirar outras cidades do planeta a se harmonizarem novamente com seus rios.

Todos nós temos dons e talentos específicos que sinalizam um pouco do nosso propósito de vida, daquilo que viemos fazer neste planeta. Acredito que cidades também possuem vocações específicas e, consequentemente, também têm um propósito na nossa evolução humana. Quando uma cidade como São Paulo, que tem enorme vocação para se tornar uma metrópole fluvial, nega essa vocação, é como se ela estivesse brigando com sua própria natureza, com o seu propósito.

Mas, como podemos acordar as vocações de uma cidade. Uma das formas é justamente buscar por exemplos no mundo onde vocações parecidas foram acordadas em outras cidade. Outra forma, que gosto bastante, é representar artisticamente como seria a cidade se essas vocações fossem acordadas. É o que a artista plástica Ângela León fez lindamente no Guia Fantástico de São Paulo, um livro ilustrado que mostra cenas de como a cidade poderia ser. Separei aqui algumas imagens que mostram uma São Paulo em paz com seus rios. Deixo você aqui com as imagens da Ângela para se deliciar e, na semana que vem, eu volto a falar sobre esse tema do propósito e da Nova Cidade.

Ilustrações de Ângela León – Guia Fantástico de São Paulo

Ilustrações de Ângela León – Guia Fantástico de São Paulo

Ilustrações de Ângela León – Guia Fantástico de São Paulo

Um grande abraço para você, cuide-se e fique bem.