06 2026

O “Living Origens” de José Navarro na CASACOR São Paulo 2026

08 jun, 2026 | Mostras, De 50 a 100 m2, Cidade

Fotos: MCA Estúdio / Divulgação
Escritório: Navarro Arquitetura
Área: 80m²
Localização: CASACOR São Paulo

A participação em uma mostra de grande visibilidade como a CASACOR São Paulo é, tradicionalmente, uma oportunidade para apresentar tendências, lançamentos de mercado e soluções estéticas de alto padrão. No entanto, em sua terceira passagem pelo evento, o arquiteto José Navarro, à frente do Atelier Navarro Arquitetura, decidiu subverter a lógica do puro exibicionismo para propor um manifesto.

O Living Origens, um espaço de 80m² projetado para a edição de 2026, alinha-se ao tema central “Mente e Coração”. Mais do que um ambiente de estar, o projeto materializa uma pesquisa iniciada por Navarro ainda em sua formação acadêmica e aprofundada durante sua passagem pela Universidade de São Paulo (USP), tensionando os códigos que orientam o consumo e as escolhas no morar contemporâneo.

A teoria dos signos e o consumo na arquitetura

O embasamento do Living Origens apoia-se em conceitos sociológicos robustos, bebendo diretamente na teoria dos signos de Jean Baudrillard e nas análises sobre a sociedade de consumo de Zygmunt Bauman. A premissa adotada por Navarro é clara: na contemporaneidade, não se consome apenas o objeto ou o espaço físico por sua função utilitária, mas sim a carga de significados e o status simbólico que eles carregam.

A partir disso, cada decisão do projeto — das especificações técnicas de materiais à disposição milimétrica do mobiliário e das obras de arte — foi desenhada para revelar essas camadas ocultas de valor, estimulando o visitante a questionar o papel do profissional, as pressões do mercado e o olhar do outro na construção do próprio lar.

O percurso narrativo: do consagrado ao contemporâneo

O ambiente foi estruturado como uma narrativa visual e espacial, onde o visitante é convidado a percorrer um caminho de contrastes.

A entrada e a provocação inicial

Logo no acesso ao ambiente, uma grande estante em tom terracota faz uma homenagem direta ao mestre Isay Weinfeld. É neste mesmo elemento que Navarro insere uma crítica sutil às aparências e discursos vazios do mercado, incorporando plantas artificiais e falsificados “prêmios de sustentabilidade”.

Avançando pelo início do percurso, o mobiliário e a arte tridimensional começam a dialogar. A cadeira Sobrepor — peça de design autoral assinada pelo Estudio De La Cruz em parceria com Domingos Totora e lançada na SP-Arte 2026 — divide espaço com duas esculturas geométricas de parede do artista moderno Franz Weissmann.

O arquiteto José Navarro explica que posicionou propositalmente as obras do Weissmann, um artista moderno, logo na entrada do espaço. O objetivo foi criar uma narrativa onde a arte moderna consagrada abre espaço para os artistas mais recentes, servindo como um reflexo fiel de toda a narrativa pensada para o ambiente.

A transição para o living

Marcando a transição para a área principal, a parede recebe a impactante obra “Batendo Corpos”, produzida sob medida pelo jovem artista mineiro Desali. O trabalho, que utiliza a materialidade bruta da madeira e a observação do cotidiano como base, contrapõe-se diretamente à rigidez formal das esculturas de Weissmann situadas passos atrás, expandindo a espessura discursiva do espaço.

A estante-galeria e a curadoria

O coração do estar é delimitado por uma monumental estante interna transformada em galeria de arte. Ali, Navarro orquestra uma conversa rica e complexa entre criadores de diferentes gerações e linguagens.

No grupo focado em Arte Moderna e Acervo Pessoal, figuram os artistas Amílcar de Castro e Sonia Ebling. Suas esculturas de bronze e metal pertencem à coleção privada do arquiteto e foram posicionadas estrategicamente para pontuar a harmonia conceitual do espaço.

Já no grupo de Arte Contemporânea, que reúne nomes consolidados e novos talentos, a lista inclui Tunga, Elisa Arruda, Marilá Dardot, Ana Vitoria Mussi, Amalia Giacomini, Ricardo Homen, Michelle Rosser, Eduardo Fonseca, Thaís Helt, José Bento, Maria Lira, Estela Sokol, Leopoldo Martins, Nydia Rocha, Martin Parr, Raul Mourão, Laura da Vinci, Nelson Leirner e Nazareno. Os grandes destaques desse setor são a gravura em metal intitulada “Algumas Casas”, de Nazareno, e a tela inédita de grande formato de Andrey Rossi, desenvolvida exclusivamente a partir da interpretação do projeto arquitetônico.

Mobiliário assinado: ícones do design brasileiro

O mobiliário escolhido para o living não funciona apenas como suporte ergonômico, mas reforça o manifesto crítico e a valorização cultural da produção nacional:

  • Poltrona Favela (Irmãos Campana): Construída com sarrafos de madeira, a peça é entendida como um marco do design brasileiro contemporâneo e traz uma forte carga de ressignificação de materiais.

  • Lina Bo Bardi: Peças históricas de design assinadas pela arquiteta modernista trazem a crueza e a sofisticação da sua produção intelectual para o espaço.

  • Poltronas Envelope e Sofá (+55): São as peças responsáveis por trazer a escala do conforto e a sofisticação têxtil necessária para o ato de permanecer e habitar o living.

  • Mesa de Centro: Funciona como plano de exposição para obras de arte conceituais, posicionando a provocativa “Xeque Mate”, de Nelson Leirner, lado a lado com a obra “Manual de Primeiros Socorros”, de Adriana Varejão.

Texturas, matéria e raízes locais

Apesar da densidade intelectual, o Living Origens consegue ser extremamente acolhedor, sensação alcançada pelo uso estratégico de elementos naturais texturizados.

A conexão de José Navarro com suas origens mineiras ganha forma física no desenho do piso e da lareira de pedra-sabão. O bloco monolítico foi selecionado pessoalmente pelo arquiteto diretamente na pedreira, garantindo um desenho de veios único e uma crueza elegante ao ambiente.

Nas paredes e no teto, a madeira entra como contraponto quente e sofisticado através do painel ripado em Cumaru, utilizando o revestimento Milano da Akafloor. O ritmo dos ripados garante unidade visual, conforto acústico e serve de fundo para a vasta coleção artística.

Por fim, a dimensão humana e social da arquitetura é costurada pela inserção da obra “Dipico”, de Marilá Dardot. A artista fotografou as mãos de trabalhadores da construção civil e colheu relatos manuscritos sobre seus desejos pessoais. Em uma mostra focada no mercado imobiliário e de decoração, trazer à tona a identidade de quem efetivamente constrói as paredes é o fechamento poético e político perfeito para a proposta do Atelier Navarro.

Entre a razão estrutural e a sensibilidade artística, o Living Origens prova que olhar para trás e entender as nossas raízes não é um exercício de nostalgia vazia, mas sim a ferramenta mais afiada para criticar, compreender e projetar o nosso presente.