Casa Jacob: Felipe Carolo transforma memórias familiares em um loft cheio de personalidade na CASACOR São Paulo 2026
25 jun, 2026 | Mostras, De 50 a 100 m2, Cidade

Fotos: MCA Estúdio / Divulgação
Escritório: Felipe Carolo
Área: 77m²
Localização: CASACOR São Paulo 2026
Entre as muitas narrativas que ocupam os ambientes da CASACOR São Paulo 2026, poucas são tão pessoais quanto a apresentada por Felipe Carolo. Em sua segunda participação consecutiva na mostra, o arquiteto assina a Casa Jacob | Itaú Personnalité, um loft de 77m² que parte de uma história familiar para refletir sobre legado, memória e permanência. O ambiente homenageia o centenário de seu avô, Jacob, personagem fundamental em sua trajetória pessoal e profissional, transformando recordações afetivas em uma proposta espacial contemporânea.
Mais do que reproduzir objetos do passado, o projeto investiga como a herança emocional pode dialogar com os modos de morar atuais. Em um momento em que discursos sobre memória frequentemente se tornam fórmulas repetidas, Felipe Carolo opta por construir uma narrativa autêntica, baseada em experiências reais e traduzida por meio da arquitetura, do design e da curadoria.
Objetos de família como ponto de partida
A história começa com três peças herdadas da família. Uma escrivaninha inglesa pertencente ao avô, restaurada com acabamento que evidencia a madeira natural e detalhes em preto; um aparador que atravessou gerações; e um antigo baú do tataravô instalado na suíte.
Esses elementos funcionam como âncoras afetivas dentro de uma composição que evita o caráter cenográfico. Em vez de transformar a nostalgia em tema decorativo, o arquiteto a utiliza como matéria-prima para criar um espaço que fala simultaneamente sobre passado, presente e futuro.
O resultado é um loft integrado, onde living, cozinha, home office, lavabo e suíte compartilham uma mesma linguagem, marcada pela fluidez dos percursos e pela ausência de barreiras rígidas.
Uma paleta intensa para um morar contemporâneo
O azul surge como protagonista do projeto, em referência ao universo da educação e do conhecimento, aspectos centrais na trajetória de Jacob. A cor aparece em contraste com materiais de forte presença tátil, como madeira natural, couro, tecidos e superfícies metalizadas.
A composição ganha profundidade por meio das lâminas de madeira Alpi Wood, dos revestimentos inspirados nas coleções Sushi e Pirarucu, dos painéis geométricos em bronze e preto e de uma paleta complementar composta por tons terrosos e verde-musgo. Costurando todo o ambiente, o piso em paginação herringbone contribui para a unidade visual do espaço.
Design colecionável e referências modernistas
Um dos aspectos mais marcantes da Casa Jacob é a sobreposição de referências. O repertório visual transita entre o modernismo brasileiro, o design mid-century e elementos clássicos da arquitetura europeia, reinterpretados sob uma perspectiva contemporânea.
Entre os destaques está a porta-escultura inspirada na série Bichos, de Lygia Clark, reinterpretada com influências da escola Bauhaus. No living, o icônico lustre Flying Disc, criado por Ingo Maurer, ocupa o pé-direito de 4,50 metros e se torna um dos principais pontos focais do ambiente.
O sofá Chesterfield em couro também assume papel importante na narrativa. Associado à casa do avô, ele aparece reinterpretado em uma composição menos formal, dialogando com a proposta de atualização das memórias familiares.
Suíte e cozinha exploram novas leituras do retrô
Na cozinha, armários com desenho circular e bancada em Corian reforçam o caráter escultórico do projeto. Já a suíte evita leituras literais de influências orientais e aposta em uma atmosfera mais sutil, construída a partir de uma cama baixa sobre base estofada, biombos, elementos botânicos e um box central envolvido por película de inspiração setentista.
A combinação cria um cenário que revisita o passado sem reproduzi-lo, sugerindo novas interpretações para referências históricas e afetivas.
Arte e paisagismo ampliam a narrativa
A curadoria artística desempenha papel fundamental na construção do ambiente. Obras de artistas como Pierre Verger, Júlio Villani, Maria Antonia, Poliana Toussaint, Tathyana Santiago e Carol Ambrósio ajudam a construir uma narrativa visual plural e sofisticada.
Outro destaque é a instalação botânica criada por Aline Matsumoto. Com bromélias — a flor favorita de Jacob — a composição reforça a dimensão afetiva do projeto e estabelece conexões entre natureza, memória e pertencimento.
Um espaço sobre legado, não sobre nostalgia
A Casa Jacob | Itaú Personnalité demonstra como a arquitetura pode funcionar como ferramenta de preservação de histórias sem abrir mão da contemporaneidade. Em vez de se apoiar apenas no valor emocional dos objetos, Felipe Carolo constrói uma reflexão mais ampla sobre herança cultural, identidade e transformação.
Ao unir design colecionável, referências históricas, arte e memória familiar, o arquiteto entrega um ambiente que celebra a individualidade em um momento marcado pela padronização estética. O resultado é um espaço que confirma uma ideia cada vez mais rara: casas memoráveis não são necessariamente aquelas que seguem tendências, mas aquelas capazes de traduzir histórias genuínas em arquitetura.


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