Refúgio na Bahia com arquitetura inteligente e acolhedora
19 mar, 2026 | Acima de 200 m2, Praia

Fotos: OKA Fotografia / Divulgação
Arquitetos: João Gabriel Rosa e Marinna de Paula
Área: 240m²
Localização: Praia de Algodões, Península de Maraú – Bahia
Fruto de uma colaboração entre os arquitetos João Gabriel Rosa e Marinna de Paula, esta casa erguida na Praia de Algodões, na Península de Maraú, foi projetada ao longo de seis meses e construída em cerca de dois anos e meio. A residência de 240m² reflete uma mudança de vida radical do casal Beth e Xuxa — ela, produtora cultural e ele, produtor e diretor musical. O que antes era um plano distante de aposentadoria no Nordeste se transformou em presente, impulsionado pela pausa forçada da pandemia e pelo encantamento imediato com a paisagem ainda intocada de Algodões.
A relação com o projeto também é atravessada por vínculos afetivos: Beth é irmã de João Gabriel, um dos autores da casa, o que trouxe uma camada adicional de intimidade ao processo criativo. Desde o início, o desafio foi claro: conceber uma residência multifuncional, capaz de abrigar não apenas o cotidiano do casal, mas também receber hóspedes, sediar pequenas apresentações e acolher residências artísticas. Uma casa que se comporta como muitas, sem perder sua essência doméstica.
“O maior desafio – e também a principal demanda — foi criar uma residência multifuncional, capaz de se adaptar a diferentes usos: ser lar dos proprietários, acolher hóspedes e também receber shows e atividades como residência artística. Uma verdadeira casa 3 em 1.”
A solução encontrada revela inteligência espacial e sensibilidade ao uso. Embora à primeira vista se apresente como uma casa única, sua dinâmica de circulação rompe com o convencional: os quartos são acessados externamente, o que reduz áreas de passagem internas e garante autonomia aos hóspedes. Essa organização permite que diferentes usos coexistam com fluidez, preservando tanto a privacidade quanto o convívio.
A implantação também responde diretamente ao clima e à geografia local. Disposta no sentido leste-oeste, a construção aproveita os ventos predominantes para garantir ventilação cruzada constante. As aberturas generosas, especialmente as portas piso-teto em carpintaria, ampliam a entrada de luz natural e dissolvem os limites entre interior e exterior. O telhado com lanternim atua como respiro térmico, permitindo a saída do ar quente mesmo quando a casa está fechada.
Materialmente, a casa se ancora em uma paleta honesta e durável: concreto, madeira e cerâmica compõem a base construtiva. O concreto e a cerâmica, por exemplo, acabam sendo absorvidos pelo tempo, ganhando musgos, o que os arquitetos transformaram em um detalhe charmoso. A escolha desses materiais não é apenas estética, mas também uma resposta ao contexto tanto climático quanto logístico. Em uma região de acesso difícil, especialmente em períodos de chuva, trabalhar com o que está disponível localmente se torna uma decisão sustentável e coerente.
“Era um desafio construir num local que sabíamos ser de clima bastante úmido mas sem ter exatamente essa dimensão. O projeto ficou pronto antes de conhecermos o local. Outro ponto que demandou boa pesquisa, foi entender quais as técnicas construtivas eram de domínio da mão de obra local antes de iniciar o projeto, tratando isso como premissa mesmo.”
A madeira, presente na estrutura da cobertura, esquadrias, forros e deck, foi selecionada com cuidado e tratada para resistir às condições da região. Maçaranduba, angelim e cumaru se combinam a telhas de barro artesanal, criando uma atmosfera acolhedora e profundamente conectada ao entorno. Já os acabamentos, como o piso e a bancada em cimento queimado, revelam um trabalho minucioso de experimentação até alcançar o tom ideal: um terracota suave que ecoa as cores da Península.
Internamente, a distribuição reforça o conceito híbrido da casa. Um núcleo frontal com três suítes atende aos hóspedes, enquanto a suíte principal, mais reservada, ocupa os fundos do terreno. Entre eles, as áreas de convívio se abrem para o deck, criando um grande espaço contínuo de encontro. Essa generosidade nos ambientes sociais é, segundo os arquitetos, uma das grandes virtudes do projeto, potencializada pela autonomia das áreas íntimas.
Na ambientação, o tempo é um elemento ativo. Sem pressa, o casal foi incorporando peças de artesanato local, objetos de viagem e mobiliário garimpado, construindo uma narrativa afetiva e em constante transformação. Não há marcenaria tradicional: o mobiliário fixo foi executado em argamassa armada por profissionais da região, enquanto mesas, luminárias e acessórios surgem de encontros com artesãos locais. O jardim, cultivado com dedicação ao longo dos meses, completa a experiência sensorial da casa. Com predominância de espécies nativas, ele envolve a construção e reforça a sensação de estar imerso na mata.
“Foram 30 dias intensos, das 7h às 17h, com a ajuda da minha irmã Maria Vitória e amigos, coletando mudas de espécies nativas e trazendo duas que eram um sonho antigo: a palmeira-do-viajante e a bougainville. Depois, durante um ano, eu me dedicava diariamente ao jardim até que ele começou a tomar forma. Hoje, com o apoio de um profissional na manutenção, ele é a nossa pérola — a principal decoração da casa, que dá a sensação de estar dentro da mata. Sou apaixonada por plantas e fomos incorporando elas também na decoração, até que se tornaram parte essencial do todo.”



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